Jamais esquecerei o som da minha morte.
Começou com o barulho sistemático da música eletrônica que tocava na boate. Do bar eu podia ver o movimento, podia ver a pista de dança. E foi com meus pensamentos perdidos entre um flash e outro da luz estroboscópica que eu os vi pela primeira vez.
Jamais esquecerei do verde daqueles olhos.
Seu corpo esguio se contorcia em movimentos delicados. Era como uma serpente se movimentando lentamente, mas com precisão aterradora, como uma serpente pronta para dar o bote. Como um encantador de serpentes pego em seu próprio feitiço, fui até ela. A dose de vodka que eu trazia na mão esquerda facilitou as coisas e horas depois ela ainda se contorcia. Não mais na pista de dança, mas na minha cama.
Jamais esquecerei aqueles lábios.
O suor lhe saía pelos poros e corria por seus seios. Não eram grandes, mas eram firmes, redondos e acompanhavam o movimento de seu corpo quando ela se inclinava de tesão. O som de seu gemido era música. Música que me enchia de virilidade descontrolada e me fazia puxar seu cabelo com força e implorar por mais. E ela me atendia, subia e descia com vigor, me tragava para dentro de si, me apertava com as coxas e sorria como que dizendo que nunca mais me libertaria. E quem seria louco de querer a liberdade de tal prisão? Somente os loucos negariam sua boca de toque macio, sua pele alva e seus olhos verdes. Eu nunca cultivei a sanidade.
Jamais esquecerei o som da minha morte.
Terminou com o estampido de uma arma disparando. O projétil perfurou meu pulmão. O sangue negro me subiu à boca. Cai em um baque surdo. Não posso culpá-la , sempre fui um crápula. Mulher sempre foi meu fraco. Troquei seus lindos olhos verdes por um par de olhos azuis rasos. Troquei sua música por uma cacofonia loira sem conteúdo.Troquei-a por sua melhor amiga. A coitada morreu primeiro, pintou a parede do quarto de vermelho.
Jamais esquecerei o som de sua voz.
Foi ali, caído no chão, me afogando em meu próprio sangue que eu os vi pela última vez. Os olhos verdes estavam ainda mais brilhantes, ainda mais sedutores. Se eu estivesse sentindo meus membros inferiores certamente teria tido uma ereção. Mas eu não sentia nada, só frio. Antes de apagar rumo ao nada eu ainda pude ver o sorriso preenchendo seu rosto. Ela sorria, não, ela gargalhava enquanto meu sangue ensopava sua calça. Ajoelhada ao meu lado ela se curvou em direção ao meu ouvido. Senti sua respiração e ouvi suas últimas palavras para mim.
“Vai se foder babaca do cacete”.