O cigarro brilhou vermelho enquanto o pulmão se enchia com a nicotina e o alcatrão. A fumaça saiu pela boca e pelo nariz projetando imagens que só existiam na cabeça dele.Fez sinal para a garçonete que acenou com a cabeça em resposta. Apagou o resto do fumo no cinzeiro em sua frente e olhou para ela com aquele olhar clínico de homem querendo um final feliz para uma noite infeliz. “Gostosa”, pensou ele enquanto acompanhava o deslocamento casual que ela realizava por entre as mesas. “Peito bonito, maior que minha mão certamente. A bunda não é tão grande, mas os olhos azuis e os cabelos loiros compensam”.
- Pois não Senhor? – Perguntou a garçonete exibindo a arcada dentária irritantemente branca e perfeita.
- Senta ai. – O som saiu de sua garganta sem carregar nenhum tipo emoção.
- Desculpe Senhor, não entendi.
- Senta ai!
- Infelizmente não posso, estou trabalhando. – Ela se virou preparando para deixar para trás aquele homem, “bonitinho, mas com jeito de psicopata”.
- Não, espera um pouco. – Ele se virou e segurou o braço dela, “pele lisa, branca, uma delícia”. – Eu só quero te fazer uma pergunta.
Ela ficou ali parada por alguns instantes olhando para ele. O jeito de psicopata deu lugar ao semblante de um homem carente, “e que psicopata não é carente?”, ela sorriu e voltou. Seu gerente não estava no bar e o movimento não estava tão grande.
- Tá bom, mas tem que ser rápido!
- Você já amou alguém?
Tomada de surpresa pela pergunta, ela ficou paralisada. Sorriu sem graça e abaixou a cabeça, enrolou alguns fios do cabelo loiro entre os dedos. Pegou-se pensando sobre a pergunta, já tinha amado alguém?
- Bom… Na verdade eu não sei… Acho que sim. – Gaguejou sem querer, sorriu novamente enquanto sentia as bochechas esquentarem.
- Não precisa ficar vermelha não, é só uma pergunta simples. – Ele se inclinou em direção a ela e sorriu, ainda olhando para os olhos azuis envergonhados ele puxou um cigarro e ofereceu a ela.
- Não, obrigada, não fumo.
- Se importa?
- Não, claro que não.
- Ótimo. E então, já que você acha que amou algum dia… – colocou o cigarro na boca e acendeu, deu uma tragada profunda, virou seu rosto para a direita e soltou a fumaça – o que você acha que é o amor?
- Eu não sei ao certo, talvez seja aquele frio na espinha que a gente sente ao pensar na pessoa que está conosco.
- Pra mim isso se chama tesão querida!
- É, acho que ficou parecido com isso mesmo! – Ela levantou a sobrancelha direita e riu gostosamente – Mas não foi o que eu quis dizer.
- Claro que não. – Respondeu ele com um leve tom irônico na voz.
- Não, é sério. Quer dizer, sabe aquela coisa gostosa que a gente sente? Aquela vontade de ver o companheiro, de dividir algum momento bom com ele.
- É, eu sei. Mas nunca chamei isso de amor, sempre chamei de “fogo no rabo”.
O sorriso dela desapareceu subitamente, “Fogo no rabo” não era exatamente algo bonito a se falar e ele parecia não se importar com isso. Olhou bem pra ele percebendo os contornos daquele rosto que escondia alguma coisa muito traumática. Ele desviou o olhar por alguns minutos e apagou o cigarro.
- Veja, não me leve a mal. A idéia não era ser grosseiro. É que eu já escutei esse papo de “dividir momentos” antes, milhares de vezes antes, de gente que dizia que me amava. Tudo bobeira, isso é coisa de revista Capricho. Todas as mulheres que disseram me amar, que queriam compartilhar momentos, todas sem exceção me traíram de algum modo.
- Talvez você só tenha dado azar. Ou talvez tenha dado motivo pra elas fazerem isso.
- Sim, é provável, mas é justamente aí que eu quero chegar. Vocês adoram dar esse ar onírico ao amor, essa idéia mágica de algo inquebrável. Desistem na primeira dificuldade que surge no relacionamento.
- É, acho que é você quem tem razão agora. Mas veja, você amou todas elas? Todas estas mulheres que te enganaram?
- Sim, incondicionalmente.
- E então?
- E então o que?
- E então, por que elas traíram você?
- Porque provavelmente não me amavam como diziam, devia ser só fogo no rabo.
- Meu Deus, isso é muito feio.
- O que? Fogo no rabo? Eu também acho, um desrespeito à pessoa.
- Não, quer dizer, sim. – Ela bufou e depois respirou fundo – O termo é feio, tão quanto a atitude.
- Mas é inevitável, tão quanto a atitude.
Ela mal podia acreditar no que estava ouvindo. Já não entendia o que estava fazendo ali ouvindo aquelas grosserias e discutindo sobre algo tão particular com um completo estranho. Ao mesmo tempo se sentia atraída pela conversa e pela forma displicente com que ele tratava o assunto.
- Aonde você quer chegar afinal?
- Eu achei que você ia demorar um pouco mais pra me perguntar.
- E?
- Eu só quero saber se o que estou sentindo agora é amor ou fogo no rabo.
- Você tem mesmo que usar este termo?
- Sim.
- Cara, você é muito grosso, vai ver é por isso que todas as suas ex te traíram.
- Não, elas me traíram porque tinham fogo no rabo.
- Ou porque você é um escroto.
- Se elas me amassem certamente não faria a menor diferença eu ser um escroto ou não.
- Porra, é claro que faz.
- É o que pensei, hoje em dia ninguém ama ninguém, é tudo fogo no rabo.
- Cara… – Ela foi incapaz de pensar em algo para falar. Estava absurdamente indignada com a sequência de grosserias que ele proferira. Nunca em toda sua vida tinha encontrado com alguém tão pessimista e que enxergasse o amor de forma tão leviana.
- Olha só, eu acho que nossa conversinha já deu o que tinha que dar né? Preciso voltar a trabalhar.
- Que pena, estava bastante agradável, sério mesmo.
A garçonete se levantou rapidamente, irritada. Aquele homem bem ali, que agora mesmo ostentava em seu rosto um leve sorriso sequer olhou pra ela. Ela deu dois passos em direção ao balcão do bar e então parou. O frio do ódio e da confusão correu por sua espinha e se espalhou pelo corpo. Ela respirou fundo, e se virou. Caminhou em direção ao estranho e se debruçou sobre a mesa apoiando-se sobre os braços.
- Você tem razão, é tudo fogo no rabo. O amor não existe, só o que existe é o egoísmo…
- E o fogo no rabo. – Completou ele.
- É, egoísmo e fogo no rabo.
- Que horas eu te pego?
- Em uma hora eu largo o serviço.
- Eu trago as camisinhas.
Ele se levantou e foi até o caixa. Ela continuou parada feito um dois de paus mal entendendo o que tinha acontecido. Ele acendeu outro cigarro e sorriu pensando no final feliz que estaria por vir. Ela sorriu pensando no fogo no rabo prestes a ser apagado.
Este texto faz parte de um Carnival que tenta definir o que é o amor.
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Abril 1, 2007 às 4:37 pm
Não é pra puxar o saco, não. Mas achei o texto muito bom. Não concordo com a visão dos personagens sobre o amor…mas vc já sabe que neste ponto sou brega-romântica-cafona (piada interna, amigos!).
Obrigada por não ter posto aquele PS que vc disse que ia por. Pq vc sabe que ia tomar surra de toalha molhada, não sabe?
Bjos
Abril 5, 2007 às 1:05 pm
No começo do texto, parecia aquele ambiente de filme polícial, do herói bruto sentado sozinho na mesa, mas a conversa com a garçonete foi criando um clima completamente diferente e até chegar num final que até previ por ser meio cliché, mas acho que você deveria ter trabalhado melhor o conto.
A idéia está boa, algo entre o o desenvolvimento dos personagens e o diálogo está pouco verossímil.
“Thiago Henrique no apropriações”? Eu pensava que você gostava de preservar seu nome. :P
Abril 20, 2007 às 7:49 pm
Porra, véio
O texto é muito, muito bom. Consegui imaginar cada cena, cada olhar e até o fogo no raboque o dito diz. Tesão mesmo! Eu quero dizer o texto!